Vírgula 7
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
1997
Ao contrário da corrente individualista que domina atualmente o mercado de arte, os artistas que compõem a mostra Vírgula 7 propõem uma dialética que avança e traça um corte diferenciado na produção contemporânea das artes plásticas.
No conjunto, esses artistas não formam um grupo em si. São amigos que moram em sua maioria em São Paulo e se reúnem para discutir e expor arte. Com estilos, idades e tendências absolutamente diferentes, o que têm em comum é um percurso investigativo, sem medo do risco. Numa época de impessoalidade, em que a produção de massa uniformiza o produto, a arte se converte no reduto mais combativo dos direitos da individualidade, mas isso não exclui a troca de experiências.
Paralelamente ao personalismo vigente, Ayao Okamoto, Mário Ishikawa, Alberto Lefèvre, Graciela Rodriguez, Roberto Okinaka, Frederico Fonseca e Aprigio Fonseca, desenvolvem pesquisas alimentadas por uma ideologia de discussões permanentes, sem com isso formar uma comunidade. As reuniões eventuais servem apenas para manter viva a dialética.
As diversas vertentes sinalizam a abrangência de tendências. A ruptura entre a produção anterior de Ayao Okamoto e a atual acontece nesses quadros recentes carregados de emotividade. A liberdade interior está bem visível. O preto de fundo é tratado como uma cor e a intensidade cromática serve de pano de fundo para receber uma massa transparente de parafina que se esparrama sensualmente sobre a superfície, análoga a um desejo oculto, ao brilho de um olhar diáfano, desejado. Não há interesse de revelar as qualidades ou não dos elementos impregnados. Sua preocupação ainda reside em isolar o material de seu contexto cotidiano, como as caixas de maça, presentes na fase anterior e que também agora se transformam em suportes para sua pintura. Cada uma de suas "telas" tem vida própria, mas reunidas compõem uma instalação, sem se inscrever no conceito de patchwork. Em separado, funcionam como um objeto modular que se repete várias vezes, com soluções diferentes.
Também de origem oriental, Mário Ishikawa, que mantém a trajetória artística mais longa do "grupo", faz parte de uma geração de nisseis influenciados pela arte e pensamento orientais. Água, fogo, terra e ar são elementos que pontuam seus trabalhos, dependendo da disponibilidade dos materiais. A multidisciplinaridade de propostas faz com que ele se expresse tanto no desenho, como na pintura ou escultura. Nas obras tridimensionais explora as formas simplificadas, com economia de gestos, usando materiais distintos.
Sem utilizar a imagem do homem, capta a força e o significado de sua vida. Através da arte, Ishikawa tanto pode chegar à energia que dá origem a tudo, ou captar o fim, a morte. Círculo e quadrado são alguns dos símbolos universais que também balizam seu trabalho. Ele procura além do homem, o significado do próprio homem. Suas esculturas têm formas diferenciadas e minimalistas.
Trabalhando segundo critérios diferentes, Alberto Lefèvre mostra o impasse entre o real e o imaginário. Explora a expressividade do material, acentuando o dinamismo das linhas, definindo os volumes e criando, através de sombras, outras massas imaginárias. Suas esculturas têm espaços pluridimensionais e cada forma cria a latitude de sua coexistência carregada de vibrações secretas. Há uma multiplicação de possibilidades que ele deixa para serem exploradas pelo próprio espectador.
As formas propostas, que tanto podem ser concebidas em preto e branco ou em cores vibrantes, ao serem manipuladas, podem se desdobrar em signos. Assim como para a maioria dos trabalhos que compõem a mostra, a produção de Lefèvre trata conceitualmente a abstração como resultado de um trabalho criativo.
As pinceladas expressionistas de Graciela Rodriguez têm valor determinado em suas telas. Os gestos amplos e rápidos fazem o olhar do espectador retomar o percurso do pincel. Ligando-se ao passado mítico, sua pintura corporifica aspectos psicológicos da vida em que seus personagens movem-se por espaços circunscritos. Em a algumas telas, os limites entre a figura e o fundo s tênues e se completam. Pode-se se dizer que a pintura de Graciela perfaz uma dialética. Da pintura figurativa inicial suas pinceladas se libertam e saltam para um expressionismo mais vigoroso e mais solto. Livre das amarras da figuração pura, o traço se engaja em certo misticismo e se movimenta simultaneamente com uma pintura carregada de cores corrosivas. Esse sincronismo dá margem às interferências caligráficas desenvolvidas por gestos rápidos e nervosos que rompem a realidade.
O sentido cênico de suas telas se sobrepõe e cada elemento tem a função de dramatizar a construção, de fazê-la viver, e dar eletricidade ao discurso. Há uma finalidade prática de reagir à luz e rebater efeitos particularizados.
Já Roberto Okinaka movimenta suas composições de maneira cerebral. Da relação estreita que mantém com a natureza, aproveita ao máximo os elementos oferecidos fazendo-os cumprir uma função estrutural. A organização formal de seus quadros deixa transparecer a forte influência da pintura oriental. A técnica não é rígida e permite a agilidade no emprego das cores.
O conjunto de telas, que resulta numa instalação, tem compromisso com a unidade. Há uma interação com o emprego da matéria. A massa de cores se movimenta num espaço dominado por tensão permanente que ora se mantém em primeiro plano ora serve de apoio ao fraco. O desenvolvimento das linhas e a organização formal fazem emergir um grafismo espontâneo, resultante dos gestos vigorosos colocados no emprego dos materiais.
Em torno desse "grupo" multiplicam-se os pontos de vista, simplificam-se as formas. Nem todos os artistas trabalham na calma dos ateliês. Envolvidos há muitos anos com a geografia da cidade, Aprigio e Frederico Fonseca participam ativamente da resistência da arte urbana. Há alguns anos, vem desenvolvendo uma série de trabalhos a quatro mãos, resultado de uma pesquisa persistente nas ruas e calçadas de Olinda. Cada um, no entanto, mantém suas individualidades conceitual e formal.
Frederico recolhe os vestígios deixados no traçado da cidade, não como cidadão comum, mas como um "arqueólogo" de seu tempo. Resgatando o tecido gráfico da metrópole, através de decalques de desenhos e signos acidentais que encontra aleatoriamente, ele elabora um novo mapa da cidade. Frederico trabalha no papel com a incisão, o desenho, a pintura estabelecendo uma releitura da imagem captada. Explorar as significações marginais e secretas desses vestígios é um caminho escolhido para representar o real. Os signos recuperados são definidos sem ambiguidades, assim como seus contornos e as relações que mantêm com o mundo circundante.
Em sintonia com o trabalho de Frederico, mas concebido de maneira absolutamente independente, Aprigio desenvolve uma pintura diferenciada, resultado do diálogo que estabelece com a arqueologia captada. Há mais de dez anos trabalham em dupla. Tudo é feito a quatro mãos. Não se trata de mera transposição de experiência, mas resultado formal de um rico diálogo estético entre eles. Aprigio não se prende a suportes. A diversificação de materiais, como a pele de animais que utiliza atualmente, serve de apoio nessa pesquisa que tem como característica o retorno ao real.
Com esses recortes, de fundos translúcidos, ele provoca um diálogo de descoberta com o público, a partir de elementos anônimos, mas reconhecíveis. Com essa "antropologia" Aprigio cria novas percepções que desmitificam a idéia do belo. A redução dos meios expressivos sustenta seu discurso que envolve e recupera um grafismo vindo de todos as camadas sociais e são incorporados ao circuito erudito de arte.
Cada obra da mostra Vírgula 7 funciona como um take de cinema e, no conjunto, converte-se num feixe de idéias cuja heterogeneidade, identidade que sempre permeou as coletivas de arte, também é uma das características da produção deste final de milênio.
Leonor Amarante
Novembro, 1996