Tejupares
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
1998
Tejupares: o terceiro desenho
Em 1979, fazendo parte da exposição "Que Viva Canudos", intitulamos Tejupares a reunião de pinturas baseadas nas fachadas coloridas existentes em muitas cidades nordestinas. Dos registros fotográficos que fizemos na época, o que nos interessou foi considerar a fachada como elemento autônomo, isolando-a da paisagem. Estudamos variações das estruturas compositivas, construindo novos desenhos e combinações cromáticas, evitando o realismo descritivo e ocupando os limites retangulares da tela. A pintura propriamente dita era de fatura fina e plana à base de óleo.
Agora, resolvemos trabalhar o "terceiro desenho", confrontando nossa visão atual com as matrizes: a experiência com o "primeiro desenho", fonte inicial de estudo, hoje enriquecida pela abrangente documentação fotográfica publicada por Anna Mariani, e as nossas pinturas de 1979, consideradas como o "segundo desenho".
Recortando a madeira, ampliamos o valor do contorno das formas. Concentrando o olhar nos detalhes, fizemos surgir novas situações para compor relevos, frisos e cores, desfuncionalizando ainda mais a fachada. Adicionando matéria ao suporte, fechamos o foco para percebermos rebocos. Pintando com tintas ralas revelamos manchas, caiações anteriores. Associando formas geométricas com adornos florais inseridos desproporcionalmente à escala das silhuetas dos suportes, exercitamos opções de convívio entre imagens distintas nesses frontais salientes de embutidas moradas.
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
Recife, janeiro de 1998
Pinturas e fachadas
A pintura misteriosamente faz renascer no mundo da imaginação as imagens da realidade, dentro da uma perspectiva poética. Isto é, olhar as coisas com a intimidade de quem vê além do que é mostrado no olhar do primeiro instante. Nessas pinturas de Aprigio e Frederico que têm como referência fachadas de casas populares do nordeste brasileiro, o que chama atenção é a organização das formas, cores e recortes, ou seja, o tratamento dado ao suporte pelas mãos do artista. Se nos recortes e nas cores das fachadas estão inscritos signos secretos de quem não perdeu a razão e o devaneio de ocupar um canto no universo, mesmo estando à parte das vantagens da sociedade moderna, nos objetos dos artistas pousam outros compromissos e outras referências históricas exclusivas do campo da arte.
Estamos diante de dois cotidianos distantes. Os trabalhos dos artistas se localizam num circuito cultural determinado tendo os desenhos das fachadas como pretextos para se edificar uma linguagem que emerge de dentro de uma determinada tendência artística reconhecida. A aproximação entre as duas imagens só pode ser conceitual. Pois são produzidas e circulam em paisagens marcadas por imaginários, signos e fantasias diferentes. Nas pinturas dos artistas, as imagens, mesmo inspiradas em outras imagens, suas leituras destacam em primeiro plano problemas específicos do cotidiano de onde são contempladas.
Almandrade
Salvador, setembro 1998