APRIGIO FONSECA
FREDERICO FONSECA

Os planos do silêncio

Aprigio Fonseca

1989



O condicionamento obrigatório que os sentidos — em particular o da visão — estão assumindo face ao contemporâneo, levam-no a praticamente "escorrer" sobre planos e superfícies, indiscriminadamente, sem entretanto penetrá-los reflexivamente, equiparando-os: isto é, desqualificando.

Qualquer consideração mais séria obrigaria a deslocar a arte, já em si conceito, da esfera da comunicação de massa, onde tudo é transformado em símbolos e significados e a arte afastada do sensível, de seus compromissos com o humano, tornando-se conceito do conceito.

O abuso da cor, ou mesmo a monotonia cromática, grandes solicitações, o gigantismo dos formatos, como recursos para uma arte-espetáculo, grandiloquente e expressionista, fazem parte das concessões que a pintura aceitou ante as seduções das mídias: fazer da arte notícia, produto. Opondo-se à isto, vemos que o trabalho de Aprigio, propondo-se como medida de vivência pessoal, cheia de substância e densidade, segue pelo caminho da austeridade e da contenção (não do simplistas de onde porém emana o sentimento da festa (maturação do fruto, colheita e celebração. Se o surgimento das tintas com base acrílica veio facilitar os procedimentos da pintura, por outro lado tirou-lhe a naturalidade, aquele sabor de terra, untuoso, que impregna os procedimentos a óleo, a têmpera, resinas e velaturas. Devido à lentidão de secagem, uma pintura a óleo substancia mais apropriadamente a temporalidade e a duração, questões das quais raramente a pintura tem se ocupado; o acrílico sendo mais propício às extensões no espaço, isto é, às articulações sequenciais, ao colorismo arbitrário.

Questionados sobre a importância técnica nesta distinção (discriminação) entre os dois materiais, óleo e acrílico, teríamos que situá-la dentro mesmo do "projeto artístico" que cada autor se propõe; assim centrado no âmago da própria questão criativa, isto já se constitui em outra pergunta: o que distingue uma superprodução de Spielberg de um filme de Tarkowsky ou Fassbinder? Seus estatutos, é claro, não suas técnicas ou recursos. Em Aprigio vê-se um transcorrer no tempo, justamente ao colocar-nos diante da ancestralidade, suas práticas mágicas e invocatórias.

Mas, afinal, o que é que evoca esta pintura, assentada em sombras, senão o grande sentimento de religiosidade no ato de pintar; uma exata, calculada e cuidadosa maneira de manipular a matéria, transformá-la? Se quisermos falar em raízes, terra e do elemental, teríamos que, naturalmente, verificar sua efetuação nos planos pintados de Aprigio onde inexiste a ideia do "quadro", e que, se assim os nomeamos, seria por simples vício de linguagem; mais do que tudo nos defrontamos com o emblemático que não admite interpretações simbólicas ou significados localizados: estas pinturas nos remetem a uma situação do tempo, digamos aqui, petrificado. Duas outras considerações parecem-me importantes no caso de Aprigio: primeiro, o "pictórico" que, se aproximado com o "fílmico" definido por Barthes em relação ao filme, ficaria naquilo que na pintura não poderia ser definido, representação que não pode ser representada, fora portanto da linguagem, onde se abre um terceiro sentido: a significância (o obtuso, aquilo que está lá, mas do qual não consigo falar). Segundo, o "fotogramático", a falta de uma perspectiva diegética (a história e a narrativa), onde nada move seus elementos, situando-os antes "no plano" do que entre os planos. Isto nos fornece instantaneidade de leitura (não de compreensão propondo-se como dentro de fragmentos, sem entretanto torná-los partes amputadas de um todo maior; vemos estas obras como verdadeiros artefatos, que não só pedem para serem vistos, como também perscrutados. Perante a pintura de Aprigio fica a sensação (difusa) de estarmos diante de singulares objetos arrancados do trágico medo das almas.

Por que não manifestações de origem? Devemos ver os trabalhos atuais de Aprigio, como expressão de originalidade literalmente, de ligação à terra: por isso a festa, nunca a festividade que reveste o espetáculo. Aprigio é isso, o cru, aquilo do natural, mexendo com suas memórias, em silêncio...



Ubirajara Ribeiro
São Paulo, julho de 1989