Pinturas
Aprigio Fonseca
1992
Uma luta entre Khronos e Kairós
"Flui uniformemente o tempo absoluto, verdadeiro e matemático, sem relação com alguma coisa de externo e se chama duração. O tempo relativo, aparente e comum, é uma medida sensível e externa da duraçao por meio do movimento."
Newton
O trabalho de Aprigio dá-nos a medida dos movimentos através do urbano, considerados como "pathos", ou a paixão, que vem de fora e afeta o indivíduo. Estes são captados e elaborados tanto pela sua própria sensibilidade, quanto pela de outros, como Lampião, Rimbaud e José Anronio da Silva, numa cidade qualquer, desde que marcada pela emoção cotidiana do transeunte, a incluir acontecimentos como festas ou desastres. Não ilustra ou simula, como faria um artista até o século passado, porquanto revela-nos pela matéria e pelas formas a emoção.
A cidade é um templo, onde Aprigio vai recolher as marcas deixadas pelo homem, em especial aquelas que exalam afetivos conhecimentos. Trabalha com asfalto, cimento, areia e barro, enobrecidos pelo pó marmóreo, em verdade a matéria-prima do homem e da cidade, a funcionar como um receptáculo das sensações, traços e até, dos objetos abandonados. Esse sentido de recuperar ações pelo que permanece, já se encontrava em seus trabalhos desenvolvidos em Olinda, em que realizava impressões na própria calçada, recolhendo inscrições.
Nesta exposição, apresenta uma obra em que compõe com objetos achados, os "ready-made", e assim, resgata o cesto de lixo urbano amassado pela fúria ou pelo acaso, incrustando-o juntamente com uma luva usada, na obra "O Pintor e o Espartilho". Fixa, pois, a medida de um tempo vivido, a ocasião destacada, ou seja, o de Kairós, delineado por sentimentos extremos e simultâneos: a violência urbana e a dignidade do trabalho.
Esses mesmos materiais expressivos são organizados para um relato referencial - a presença de um filho em sua vida -, vale dizer o tempo de Khronos, e ligado à sucessão dos dias e de gerações, num movimento pendular, profundamente humano. Este fato está claramente enunciado em obras que levam seu nome: "A Árvore de Tomás", ou mesmo "A Falação de Tomás".
Esse encontro com a vida passa a ser qualificado com sinal positivo em seu desenvolvimento, emulando para o trabalho fontes humanas viscerais, como a natureza e as ideias, valendo-se de uma representação, identificada com a infantil, aparentemente desconexa do universo. Se para muitos a divisão de espaço, a afetiva e a material, decorrentes do nascimento de um filho, pode passar por um sentimento de perda, aqui enriquece o imaginário e suaviza efeitos, legando-lhes uma poesia asfáltica e contemporânea.
Sua arte revitaliza e torna visível todo um universo de objetos, já rotinizado e amortecido pelo todo-dia, do cidadão e mesmo do artista. Simples tábuas com pregos ou um cone cerâmico usado para detectar a queima adequada no forno adquirem em sua obra um significado simbólico e sutil, que honra a inteligência do observador, como exemplificam as obras "Sobre as Pontes do Recife" ou mesmo em "A Árvore de Tomás". Toda uma simbologia milenar permeia as obras, aparecendo triângulos indicativos do fogo e do ar, a fenda curvilínea ligada à reprodução e ao feminino, a cruz, enfim a redução das idéias às formas essenciais. Debate os grandes temas humanos com dramaticidade, sempre convidando a um olhar mais atento e capaz de reconhecer poesia no cotidiano.
M. Cecília França Lourenço
São Paulo, inverno 1992.