APRIGIO FONSECA
FREDERICO FONSECA

Pátio

Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca

1991



Pátio tátil


"Tudo é símbolo.
E sábio é quem lê em tudo."

Plotino


Eis aqui um conjunto de obras - de unidade fechada - que se abre, simultaneamente, em mil direções da realidade multifária, buscando codificar o aparente e o imaginário em signos e formas, essencialidade e matéria. Assunto primordial da pintura, essa busca se torna, aqui, a busca da matéria, através da essencialidade do olhar inicialmente bipartido entre o macro e o micro, o remoto e o imediato, o todo e a parte até o fragmento.

Não se pode, a rigor, falar de abstracionismo diante dessas mil realidades contidas em cinquenta registros aspirando à maior materialidade possível através de incrustações, sinais e mesmo objetos que, nesses quadrados mágicos, quase se desmaterializam - inclusive no sentido da geometria (sem que se possa falar de geometrismo, abstratizante ou não). Porque o olhar, aqui (o olhar dos artistas dirigindo o nosso), veio das inscrições novas e das gravações antigas, passou por grafios pompeianos e por sinais "calungas" e figuras gravadas em muros, bem mais novos de Olinda, e se conteve, esse olhar erudito, diante da opção eventualmente informalista que poderia implodir a criação no sentido do mimetismo. Não, aqui se vê uma paisagem buscada no intervalo dos signos e recriada nos quadros de medida fixa (40 x 40 cm) que simulam lajotas de um pátio pessoal tátil e visual proposto por Aprigio e Frederico.

Artistas maduros, aqui depuram todo um aprendizado de calçadas e muros, sem rejeitar a fonte, cruzam com outros artistas, sobre um campo de experiência próprio: o "pátio" de recolhas visuais e táteis, de manchas como as queimas cerâmicas em fusão com pisos gravados, mármores riscados, e reminiscentes em pó (de mistura com pigmentos - todos naturais - através de que obtiveram o curioso efeito de recriação das cores via-pincel) onde é possível reconhecer desde a herança rupestre a pigmentar presença das placas cerâmicas de Brennand.

Errado, por outro lado, seria pensar em Mark Boyle e nas famílias dos que premeditam o já visto, o conhecido e o pisado (e repisado) sem transfigurações outras para além do chão não no lugar do chão, do calçamento mimetizado na parede - o que só por um momento de pequena vertigem, no caos do cotidiano, se torna do interesse de especialistas em labirinto. Ao contrário, neste pátio de surpresas, o nosso olhar salta de lajota em lajota como na contemplação de quadros separados - que efetivamente o são - pela reflexão que neles, concentradamente habita num caos primordial que não exclui o urbano, praias de São Paulo, capital e Augustas ruas de Olinda, tudo enxergado em grão e numa ordem mental que busca, às vezes, fazer o concreto dessas visões parecer abstrato até um extremo limite... e uma parede muito lisa, vista de pertíssimo, então se assemelha à rudeza da taipa nordestina.

E esse pátio é também um jogo, deve-se concluir. Forma um xadrez de formas vivas, junta signos de todas as formas e as separa como novos símbolos no momento seguinte: jogo que o apreciador também pode jogar na sua parede como se fossem vocábulos de matéria com que se pode reordenar "quadros" de quatro, oito, doze (ou mais) das cinquenta partes reunidas em sub-sintaxes. É, em princípio, um nunca acabar do olhar voltado para o interior das coisas através do máximo "exterior" possível, macro e micro-omegamente proposto como síntese. Quem tem olhos para ver (e para quê mais seriam?) sabe que toda saberdoria não se inscreve senão entre tais limites.


Fernando Monteiro