Olinda cerzida
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
2014
Arqueólogos da vida sobre o concreto
Olívia Mindêlo
Jornal do Commercio - 30/01/2014
Enquanto andamos desatentos, os artistas Frederico e Aprigio se encarregam de revelar nuances de um chão ignorado.
O ímpeto espontâneo, experimental e livre que faz pulsar a arte feita entre os céus e subterrâneos pernambucanos é também o que mobiliza, há anos, inscrições praticamente desconhecidas na calçada de uma das igrejas de Olinda. Os autores certamente justificariam: “Passatempo”. Outros taxariam: “Vândalos”. E há ainda os que diriam: “Arte”, como é o caso dos artistas e irmãos Aprigio e Frederico Fonseca. Tais quais arqueólogos da vida no concreto, eles não cansam de olhar, alisar e imaginar maneiras de chamar atenção para o que a população vem deixando, há décadas, sobre as lajotas do patrimônio olindense.
Uma forma encontrada pelos irmãos de fazer isso foi intervindo artisticamente. Desta vez, escolheram o açúcar para preencher os sulcos dos entalhes do chão que ladeia a Igreja de São João Batista dos Militares, na Cidade Alta. Na ação, que integra a série de “intervenções efêmeras” Olinda cerzida, eles jogaram o pó doce sobre as lajotas e depois escovaram o excesso – ou o vento fez o movimento por eles. O resultado dura pouco, mas impressionante, porque traz à luz, por meio do branco brilhante do açúcar, as garatujas (ou rabiscos, grafismos) que poderiam ser, na linguagem artística, nominadas tranquilamente de gravura – no Vale do Catimbau, em Buíque (PE), por exemplo, os desenhos primitivos deixados no parque, em baixo relevo, assim são chamados. Os de Olinda foram feitos em tempos distintos, mas parecem guardar a mesma pulsação ancestral que motivou os povos do Sertão, onde imprimiram suas marcas.
Aprigio faz questão de explicar o porquê do açúcar sobre as grafias olindenses: “A gente já tinha feito, em 2003, um trabalho chamado "Assucar" (assim grafado no título do livro de Gilberto Freyre). Agora a nossa ideia foi devolver o açúcar a quem fabricou, porque foram os descendentes de escravos, os anônimos, a população pobre que segue vendo aqui, que fizeram estes trabalhos. Se fossem feitos por artistas, teriam uma repercussão muito maior”.
“Isso aqui é incrível, impressionante, e não é fácil de fazer. Eles aproveitam a sombra maravilhosa que dá aqui à tarde, e usam pregos e pedras para talhar cada um dos desenhos, sem passar por cima dos outros. É arte pura”, defende Frederico, que descobriu a calçada da igreja em 1978, junto ao irmão. Desde então, vêm trabalhando formas de mostrar o tesouro que encontraram no local. “É lindo, não sei como uma autoridade ainda não colocou um vidro aqui em cima para não pisarem. Já sugerimos à prefeitura, mas nunca ninguém fez nada. Os desenhos estão se apagando”, comenta o artista.
A época em que descobriram os desenhos foi também quando começaram a experimentar as primeiras intervenções artísticas na calçada. Usaram areia e tinta lavável para testar impressões em papel. Depois, ampliaram o campo de ação. Olinda cerzida, na qual esta e outras intervenções se inserem, é uma série que acontece desde 2006 em vários cantos da Cidade Alta. “A gente quer evidenciar as suas fraturas, como num manto desgastado: pegar os pontos puídos e cerzir, bordar os buraquinhos, mostrar”, diz Aprigio, radicado em São Paulo.
Desde então, todo ano retornam ao útero, o Sítio Histórico, para lembrar que há coisas que precisam ser percebidas por lá.