Olinda cerzida
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
2011
Um sonho de liberdade no MAC
Os irmãos artistas plásticos Aprigio e Frederico Fonseca voltaram a reinventar a cidade que é sua eterna musa inspiradora: Olinda. Ontem, eles fizeram uma intervenção na fachada do Museu de Arte Contemporânea de Olinda - MAC, num trabalho que dialoga, simultaneamente, com o caráter histórico e o uso artístico do antigo prédio, construído no século 18. Quem passou pela rua 13 de maio, na Cidade Alta, encontrou centenas de balões vermelhos brotando de suas janelas.
A intervenção faz parte da série "Olinda cerzida", conjunto de obras que os artistas realizam todos os anos, sempre no mês de janeiro, na Cidade Patrimônio. Em todas elas, Frederico e Aprigio provocam no público um novo olhar em relação aos monumentos de Olinda. A ideia é transportar cada um dos cenários para o tempo simbólico da arte contemporânea, somando assim, no mesmo trabalho, os valores estéticos, históricos e arquitetônicos dos espaços registrados.
No caso da versão 2011 de "Olinda cerzida", os artistas trabalham em várias camadas de leituras possíveis do prédio do MAC. Antiga casa de detenção, o edifício sediou a única prisão eclesiástica de que se tem notícia no Brasil. Segundo os registros oficiais, suas celas abrigavam "negros, mulatos e feiticeiros", sendo o local um ícone da ação dos tribunais da Inquisição no Brasil, mais especificamente no Nordeste. Até os anos 1950, a casa foi usada como presídio. "Quando criança, passava por aqui com meus pais e via os presos com as mãos pelas grades. Às vezes, eles se comunicavam com pessoas aqui fora, usando espelhos", recorda Aprigio.
Por isso, o uso de balões vermelhos é carregado de significados. "O vermelho é simbólico, representa a vida e, dessa forma, a tentativa de sair do claustro para a vida. Além disso, os balões estão ligados às festividades. É uma forma de chamarmos a atenção para o fato de que as instituições culturais, atualmente, investem demais em eventos festivos, e pouco na arte", afirma Aprigio. O artista explica que não está defendendo a arte carrancuda e sem humor, mas diz que gostaria de ver ações mais reflexivas.
Diana Moura
Jornal do Commercio
Recife, 7 de janeiro de 2011
Essência poética da arte
Os irmãos-artistas Frederico e Aprigio Fonseca acham que a arte não deveria ser considerada uma forma de entretenimento. Essa seriedade e respeito pela criação artística deve se manifestar no trabalho que eles apresentam hoje no Museu de Arte Contemporânea - MAC, em Olinda. No lugar de usar as salas de exposição, a dupla vai construir a sua nova obra nas grades do prédio, que, no século 18, funcionou como uma prisão controlada pela Igreja Católica.
Também não vai haver um coquetel, um vernissage ou qualquer tipo de protocolo de inauguração. Os artistas vão realizar a sua intervenção ao longo de todo o dia, durante a manhã e a tarde de hoje, mas, à noite, o museu vai fechar as portas normalmente. "É uma crítica às instituições que funcionam como locadoras de festividades", explica Aprigio. "Eu acho que a arte nunca deveria ser vista como diversão. A reflexão deve estar em primeiro lugar", defende Frederico.
Para representar essa arte que estaria aprisionada pelo mercado, em busca de contato com sua essência poética, os irmãos vão encaixar balões infláveis nas cavidades das grades do museu, em referências às mãos dos presidiários que tentam alcançar o mundo exterior. Entre outros motivos, as bexigas foram escolhidas por serem leves (preenchidas por ar) e translúcidas (permitem que a luz as atravesse). "Sempre nos preocupamos muito com a plasticidade", assume Aprigio.
Apesar de toda essa postura crítica, os Fonseca também defendem uma arte lúdica que abre espaço para o sorriso e o humor. Atualmente, eles desenvolvem um trabalho com fotos de pessoas anônimas que seguram placas, escondendo os rostos, com a frase "Sô di Olinda". O erro de portugês é proposital, pois letreiros artesanais populares são uma grande fonte de inspiração dos artistas. Ambas as obras fazem parte da série "Olinda cerzida", iniciada em 2006.
Julio Cavani
Diário de Pernambuco
Recife, 6 de janeiro de 2011
Olinda cerzida em vermelho
"Nossas intervenções são como suturas no manto da cidade e têm a característica de serem sempre precárias, efêmeras". Quem passou em frente ao Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco em Olinda, na última quinta-feira, pode observar a mais recente intervenção do projeto "Olinda cerzida", dos irmãos Aprigio e Frederico Fonseca. Na ação artística, os donos da autodescrição acima preencheram as frestas das grades do museu (que no passado funcionou como cadeia) com balões vermelhos.
"Trata-se de uma intervenção que lida com a nossa memória afetiva, dos habitantes de Olinda. Por exemplo, enquanto estávamos montando o trabalho, colocando os balões nas janelas, um pedestre que passava pela rua lembrou do episódio em que esteve preso no prédio. É exatamente essa memória da cidade que queremos trabalhar", afirma Aprigio.
O porquê da escolha dos balões vermelhos? "Além de se tratar de uma escolha plástica, tembém, no nível simbólico, os balões remetem à liberdade e à tentativa de sair da clausura, assim como à festa", explica Frederico. "A remissão à questão da festa pode ser vista como uma crítica às instituições museológicas e ao mercado de arte. No nosso tempo, a cultura se tornou mais entretenimento e o campo da arte um local de comércio. Muitas vezes se faz uso de instituições para referenciar um ou outro nome e para valorizar comercialmente o trabalhos desses artistas", completa Aprigio.
Outra intervenção realizada pelos irmãos Fonseca para a edição do projeto "Olinda cerzida" em 2011, é o trabalho "Sô di Olinda". Na ação, inspirada na série anterior "Falação dos mudos" (1983), a dupla brinca com a grafia de letreiros populares e com o conceito de arte anônima. "Buscamos explorar a maneira como essas placas de serviços realizam uma transcrição sonora da fala, observando a forma como os signos são postos segundo critérios de dificuldade e desproporção", afirmam.
Paulo Carvalho
Folha de Pernambuco
Recife, 8 de janeiro de 2011