APRIGIO FONSECA
FREDERICO FONSECA

Olinda cerzida

Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca

2010



Uma Olinda que se reinventa

Há algo no universo da arte contemporânea de Pernambuco que só acontece quando os artistas plásticos Aprigio e Frederico Fonseca se encontram em Olinda. Claro que toda produção artística tem traços particulares que marcam a existência de seus autores. O trabalho que surge da relação dos irmãos Fonseca com a Cidade Patrimônio, entretanto, não está à busca de autoria. Pelo contrário. São obras carregadas de um senso de coletividade e impregnadas pelo apelo popular do local. Sutis e efêmeras, elas se desmancham tão logo são criadas, mas deixam vestígios. Os mais "palpáveis" estão registrados no site dos artistas, os menos óbvios ficam marcados na retina e mudam a maneira com que se enxerga a musa inspiradora da dupla. Há mais de 30 anos, eles se dedicam a observar, inventariar e recriar a Cidade Alta.

Antes do Carnaval passado, Aprigio e Frederico se encontraram mais uma vez para subir as ladeiras. Fizeram o trajeto dos foliões, dos boêmios e dos apaixonados acompanhados por dois personagens históricos dos festejos de Momo, os cabeções. Durante o percurso, foram espalhando as cabeças nos cantos do sítio histórico, desde os Milagres até a Sé, passando pelo chafariz da Praça do Carmo, pelo cemitério e pela igreja de São Jõao dos Militares, no Amparo.

Foi no passeio deste templo que a história toda começou. Em 1978, os irmãos começaram a investigar os desenhos deixados por cidadãos anônimos no entorno da igreja. O projeto, que se chamava Das calçadas de Olinda, rendeu várias séries de obras, até que a dupla decidiu se apropriar de novos elementos tipicamente olindenses. As novas iniciativas não apenas retiravam traços pictóricos da cidade, como também lhe acrescentavam formas e cores, como no caso da série Olinda cerzida, de 2008. Neste trabalho, os artistas pintam nas fachadas das casas sombras em posições e formas que nelas jamais poderiam existir - na maioria das vezes contrariando a posição que os raios solares incidem sobre o casario.

Em 2010, os artistas utilizaram o Carnaval como mote, mas também trataram de subvertê-lo. Havia algo de melancólico nos Cabeções solitários que passeavam pelas ladeiras e observavam a Cidade Alta despida da folia, numa nudez franciscana. E Olinda, quase sempre tão dionisíaca, se permite ver como uma deusa virgem no banho. E enrubesce. Aprigio e Frederico desenham, com seus bonecos deslocados, as sombras oblíquas e impossíveis de um Carnaval inexistente. "Uma das coisas que nos interessou nestas figuras é justamente essa mistura ambígua da simbologia do Carnaval com a impessoalidade e a falta de expressão das figuras", explica Aprigio.

Numa localização salpicada de pontos turísticos, os irmãos procuram oferecer uma nova visão do patrimônio cultural da humanidade. A ideia é que a cidade possa ser descoberta em sua completude, e não vista apenas como uma sucessão de cartões postais. Para isso, Frederico explica que eles se valem dos detalhes que, normalmente, as pessoas não enxergam. "Nós buscamos, por exemplo, ressaltar a precariedade de certas situações. É uma forma de denunciar o precário, mas também de valorizar a sua plasticidade. É o mesmo processo que utilizamos para destacar os desenhos feitos por populares, nas calçadas. Essas marcas estão desaparecendo e ninguém dá a elas a devida importância. Por isso, nós marcamos os desenhos com círculos, como os policiais contornam os corpos na rua", explica Frederico.

Outro trabalho da série Olinda cerzida que merece atenção é a série realizada em 2007, na qual os artistas transportam um cubo branco e o fotografam em diversos lugares do sítio histórico. Além de discutir a simbologia do cubo branco para a arte moderna, essas imagens propõem um contraste entre a dureza da geometria e a exuberância poética da cidade mais cantada pelos pernambucanos. Quem vê a Olinda de Frederico e Aprigio Fonseca, dificilmente consegue olhar para a Cidade Alta da mesma maneira.

Diana Moura
Jornal do Commercio
Recife, 24 de fevereiro de 2010