APRIGIO FONSECA
FREDERICO FONSECA

Olinda cerzida

Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca

2006



Intervenções pela sensibilização

O calçamento é invadido pela lama e o odor de maresia mistura-se ao esgoto. Mas, adiante, longe dos cheiros, a praia descansa a visão. No dique que impede o avanço do mar, feito de grandes blocos de granito, foram desenhados com tinta branca semicírculos que destacam o conjunto. Quantos daqueles banhistas saberão tratar-se da intervenção ambiental Arcos, feita pelos irmão artistas Aprigio e Frederico Fonseca?

No dia 24 de janeiro, com os desenhos gráficos no dique, os irmãos deram início ao projeto de intervenções artísticas urbanas que intitulam Olinda cerzida, através do qual pretendem chamar a atenção dos que moram e passam por Olinda e também do poder público sobre aspectos que consideram problemáticos ou importantes de serem destacados na cidade. A dupla desenvolve trabalhos conjuntos desde os anos 1970 e tem na Olinda natal fonte constante de reflexões e projetos artísticos.

A primeira intervenção do projeto foi idealizada por eles pela observação da formação de uma "prainha" na borda interna do dique. Os artistas traduzem o bater das ondas nas pedras pela criação do arcos em linhas brancas. "Acompanhei a construção dessa obra na infância", lembra Aprigio Fonseca. "Meu pai era telégrafo dos Correios e nós morávamos na Rua de São Francisco. Frederico considera o efeito conseguido com a intervenção Arcos como algo que evidencia o contraste entre a leveza do traço e o peso das pedras de forma lúdica e sútil.

Os artistas tomam partido da intimidade com a geografia e a história do bairro do Carmo para lançar olhar crítico diante das mudanças nem sempre benéficas ocorridas nele. Até o final deste ano, pretendem realizar três intervenções em Olinda e querem concluir o projeto com dez trabalhos finalizados. O ritmo de execução vai depender das autorizações que obtenham da prefeitura local e das vindas de Aprigio ao Estado, porque ele mora em São Paulo desde o final dos anos 1990.


INTERDITADO - A Igreja de São João Batista dos Militares fica no alto do morro defronte do Largo do Amparo e seu endereço oficial é Rua da Saudade, sem número. Construção do final do século 16, foi das poucas que resistiu ao incêndio provocado pelos invasores holandeses, no século seguinte. Hoje, enquanto espera reforma anunciada em agosto do ano passado, o prédio de estilo maneirista somente abre nas noites de quinta para missa, e é cortejada nas festas de São João. Por ser assim, quase abandonada, seu pátio calçado com cerâmica é plataforma onde a comunidade local fica à vontade para cometer a contravenção de inventar desenhos, gravados nas pedras com ranhuras, ao modo de matrizes de litos e xilogravuras.

Frederico e Aprigio vêem nesses desenhos populares uma reminiscência das inscrições rupestres e os consideram legítimas obras de arte anônimas. Foi pensando assim que realizaram o primeiro trabalho que os lançou artisticamente, em 1978, intitulado Das calçadas de Olinda, pelo qual reproduziram e documentaram desenhos feitos em calçadas do sítio histórico. Este trabalho conheceu variados desdobramentos posteriores. E não deixa de ser mais um desdobramento dele a proposta de intervenção chamado Interditado, a segunda pretendida pelos artistas.

"Não existe em Olinda maior concentração de desenhos em calçada que no pátio da Igreja de São João", garante Frederico. "Nós achamos importante que sejam preservados, são também patrimônio cultural, e queremos chamar a atenção sobre eles interditando a área do pátio com faixas, impedindo temporariamente o acesso à igreja". Os irmãos propõem que os desenhos sejam mantidos colocando-se sobre eles piso protetor, como foi feito na escavação arqueológica da Sinagoga Kahal zur Israel, no Bairro do Recife, e que haja iluminação que os destaque e valorize.


Limpeza do cubo branco contrastará o caos

A terceira proposta de intervenção dos artistas poderá estabelecer maior relação de empatia com os moradores da cidade, dependendo da maneira com que for conduzida. Um cubo branco, medindo dois metros e construído com material leve e compactado, ainda não definido pela dupla, será 'rolado' por vários lugares da cidade. "A ideia é que seja uma intervenção móvel, que dialogue com o barroquismo das igrejas, com a precariedade da Ilha do Maruim, da comunidade V-8, que sua assepsia constraste com o caos circundante. Vamos documentar todo o processo em fotografias, até o momento do lançamento do cubo no mar, na Praia del Chifre".

Outras ideias estão em formulação pela duplpa. O incômodo pela falta de árvores no Bairro Novo - "Você anda pelas ruas áridas, abafadas e calorentas", descreve Aprigio - serve de estímulo para que os irmãos planejem uma intervenção que provoque reflexões sobre a necessidade de ações que modifiquem o acelerado processo de 'desertificação' dos centros urbanos, problema que está longe de ser restrito às ruas de um bairro em Olinda.


Adriana Dória Matos
Jornal do Commercio
Recife, 6 de fevereiro de 2006