Olanda, olenda, Olinda
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
1999
Da recriação para a arte do futuro
A contribuição de muitos artistas atuais, que consiste em ousados avanços para um futuro de sensações ainda não experimentadas, pode gerar um certo sentimento de insegurança e de apreensão entre os fruidores de obras de arte. Estes podem sentir-se lançados para um mundo dentro do qual as suas impressões se perdem por não possuirem referencial algum. Porém, muitas dessas obras aparentemente herméticas e abstratas incorporam elementos reconhecíveis, como se fosse uma pista para um enigma a ser resolvido pelo público.
É exatamente essa a impressão que se tem ao olhar para as obras da série "Olanda, Olenda, Olinda" dos dois irmãos Aprigio e Frederico Fonseca. Imediatamente após a primeira vista, porém, a realidade do representado vem à tona. E logo se percebe que toda a abstração não passa de ilusão de ótica. Nada mais real e figurativo do que mostram as placas, desenhos, moldes e objetos de Aprigio e Frederico. O que temos é uma série de recriações a partir de um modelo real, e que mantém uma identidade perfeita com o representado, uma vez que se observe o caminho da pesquisa abstrata. É uma abstração de algo real, no sentido literal da palavra. Não é, como no caso da arte abstrata tão difundida ao longo dá século XX, uma busca de sensações estéticas mas sim, um fiel retrato do observado.
Tudo começou em 1978, quando Aprigio e Frederico passaram a morar em São Paulo, deixando o Nordeste onde tinham sido criados e onde aprenderam suas primeiras lições de artes plásticas. Uma das coisas que mais lhes chamou a atenção foi a ausência de inscrições nas calçadas do bairro de Pinheiros onde se estabeleceram. Ainda no mesmo ano voltaram para Olinda e passaram a olhar com olhos diferentes para os detalhes da cidade, imperceptíveis aos transeuntes comuns. Encontraram uma série de imagens gravadas em baixo relevo nas cerâmicas dos pátios de igrejas e no cimento das calçadas, imagens das crianças que, em muitos casos, ganhavam a vida escavando entalhes de madeira. Os dois artistas passaram a tirar gravuras monotípicas dessas inscrições, editando-as em livro no ano de 1987.
Esta recriação de vestígios reais tornou-se uma recorrência artística de Aprigio e Frederico, e isso passou a constituir uma de suas principais preocupações estéticas. Ao longo dos anos, fizeram muitas experiências com re-utiização de objetos, tanto vegetais como artefatos, suscitando dimensões inusitadas na modalidade da collage.
Nesta tarefa constante de resgatar vestígios naturais e objetivos, foi-se avolumando neles o desejo de recobrar algo de um passado quase mítico de Olinda e Recife que foi a Ocupação Holandesa, em pleno século XVII. Praticamente nada de material sobrou desta presença tão decantada na história oficial e na memória das tradições populares. Nenhum dos afamados palácios, erigidõs na época de Maurício de Nassau, sobrou.
Os próprios fortes construídos por todo o Nordeste foram modificados pelos portugueses. Até a "Ponte Maurício de Nassau", em pleno centro do Recife é, na realidade, fruto de engenharia lusitana e bem posterior ao período flamengo.
Os holandeses, porém, haviam produzido uma vasta obra iconogáfica de tudo o que pudesse dizer respeito ao Brasil daquela época. Mauricio de Nassau havia trazido em sua comitiva diversos pintores, naturalistas e cartógrafos os quais deixaram obras valiosas além de constituirem quase que as únicas fontes de documentação do século. O mundo inteiro admira hoje as paisagens nordestinas de Frans Post e os retratos e naturezas-mortas de Abert Eckhout. Eles são objetos de orgulho de diversos museus nacionais da Europa. A flora e a fauna da época foram exaustivamente reproduzidas na própria Holanda, e assim conservadas até os nossos dias.
Foram exatamente dois desses volumes, "O Brasil que Nassau conheceu" e "Teatro das coisas naturais do Brasil", reeditados recentemente, que inspiraram Aprigio e Frederico em seu trabalho de renovar artisticamente os vestígios da presença holandesa em Olinda e Recife.
Cabe aqui ressaltar nas obras alguns aspectos importantes. O primeiro trata da relação animal/vegetal quando os artistas trabalham com os objetos alusivos a Calabar, onde "pedaços” do personagem são representados por fragmentos da palha do coqueiro na forma que lembra cabeças de animais. O uso da palha também refere-se à empreitada de Maurício de Nassau ao retirar das praias afastadas de Pernambuco aproximadamente 2.000 coqueiros adultos (40 a 70 anos) e plantá-los no Jardim do Palácio de Friburgo na Cidade do Recife.
Outro ponto a destacar é quanto às obras feitas em papel de seda, onde a inventividade dos artistas torna-se ainda mais extraordinária pois trabalham com a matéria (pó de ferro) por entre as folhas, e o que advém à superfcie são máculas, o suor oxidado das formas alapadas.
Portanto, a presente exposição é fruto de um cuidadoso trabalho de pesquisa e recriação dos dois artistas. Pode-se perfeitamente reconhecer nas obras os desenhos feitos no século XVII, com a vantagem de que boa parte de tudo isso ainda existe em nossos dias. Desta maneira, Aprigio e Frederico Fonseca cumprem com o papel social mais pertinente de um artista, que é recriar uma realidade e partir para uma existência nova, tão real quanto a anterior mas, desta vez, plenamente acessível às normas conceituais da Arte do final do milênio.
Joseph M. Luyten
Membro da ABCA
Valkenburg, Outubro de 1998