A imaginação da terra
Frederico Fonseca
1992
O invisível nos bastidores do visível
Arte é sempre abstração: representação fatalmente submissa ao prisma, enquadramento, seleção e ótica de quem a executa. Por mais silenciosa que nos pareça qualquer manifestação plástica, é importante não esquecer que ela é o veículo do subjetivismo do seu criador - olhar materializado à procura de outro olhar, o do visitante que se detém ou passa.
Nesta ordem de ideias, parece-me não ser arriscado afirmar que nenhum artista escapa de se tornar testemunha do seu tempo. E, como tal, transmitirá sempre à sua obra a tensão da época onde se instala: balizas do seu onde, quando e como. A par disso, não fugirá do condicionamento maior, esse atemporal e universal, o da sua verdade de ser humano. Compreender isso, ultrapassar as estruturas tradicionais, evitar repetições, sair dos caminhos alheios e encontrar as próprias diretrizes, eis o grande desafio.
Liberto do momento que, juntamente com Aprigio (irmão de arte e sangue), o levou às Calçadas de Olinda, primeiro deslumbramento com o manancial de signos e inscrições dos passantes anônimos, do que resultou uma série de monotipias e o livro "Das Calçadas de Olinda", num segundo instante Frederico trabalhou a quatro mãos, ainda com Aprigio, re-criação, transfiguração e apropriação desse imaginário popular que os fez chegar a mostra Pátio (1991). A partir do núcleo das Calçadas, um novo universo foi gerado. A grande pedra, estilhaçada, se fragmentou em outras — calçada virando chão de um poço mais fundo, chão espelhado onde ainda se refletia a face anônima do povo. Recriada, a geografia provinciana universaliza-se. Pátio ou átrio? Partida ou chegada?
Na verdade, para Frederico, átrio de entrada para um terceiro patamar: este onde agora existe sozinho. Obviamente ele não recusará nunca a linhagem que o une a Aprigio. Não só porque, ambos são elementos de uma mesma tribo, mas sobretudo porque assume sempre a continuidade do que defende e fez. Tal constatação é instantânea para quem percorre o universo plástico deste artista olindense - estética de símbolos e de signos em harmonia com a sua filosofia de arte: o resgate do popular e do anônimo, por se constituir no registro da representação universal do ser humano.
Questionadora das premissas clássicas de pintura, embora erudita sua obra valoriza as texturas dos materiais que utiliza — barro, areia, alumínio, pó de serra, flandre, carvão, fragmentos de azulejo, de cerâmica, de telha, de gesso, etc.
Artista de meditações plásticas e de coerência dialética, Frederico busca também a infância do Homem. Pintura urbana perseguindo no contemporâneo o despojamento primitivo, para re-historizá-lo. Como faz em Trajetória: sob a aparência singela de um bumerangue, ou de um pássaro de alumínio, surge, talvez, uma asa solta no espaço cósmico, sem outra cor além daquela do fragmento de alumínio sobre cimento, grandiosidade e silêncio de catedral, onde nenhum detalhe interfere.
Esse mesmo clima pode ser percebido numa certa "sacralização" dos objetos. Em Parede com objeto utilizado por Aprigio, por exemplo, a aplicação da base do caule da palha de coqueiro sugere cerimônia ou ritual, altar eregido a um dos elementos mais fortes da paisagem nativa. Identidade espacial e "cor" local que, impressa ou registrada na obra, confirma o que acima foi dito, sobre o fatalismo do artista ser testemunha do seu tempo e espaço.
Embora aparentemente não se encontrem no conjunto desta mostra as impressões digitais da passagem do habitante do planeta, subterraneamente a valorização do abstrato e do mental, bem como a recorrência a signos populares e suas cosmogonias, conduzem à pulsação que sinaliza a presença do Ser, exatamente como a luz que se vê, à noite, na vidraça das casas.
Há, pois, toda uma ousadia de criação, que se conjuga com o voo, a sutileza, a cor, a essência. O invisível nos bastidores do visível. E vice-versa: o visível nos bastidores do invisível.
Lúdico, experimental, zen, Frederico consegue estar em Olinda como se estivesse na aldeia mais remota ou na metrópole mais cosmopolita. Isso porque sua geografia é a Arte, e seu mundo esse que guarda dentro de si, que pode estender em qualquer espaço.
À chuva e ao sol de todos os tempos, com esta primeira mostra individual, em sua terra, Frederico confirma que o artista, quando o é, consegue preservar a pureza para descobrir a vida cotidianamente. Como se cada dia a vida se inaugurasse, inédita e incontaminada, no retângulo da janela ou nas calçada do coração.
Maria de Lourdes Hortas
Recife, setembro, 1992