Das calçadas de Olinda
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
1978
Os Caçadores de Calçadas
Tendo há alguns anos - sem querer com isso sugerir qualquer precedência - interesse de me apropriar dos letreiros e desenhos espalhados pelas paredes da cidade, sinto-me, nem que fosse somente por isso, capacitado a esta apresentação das "monotipias" de Aprigio e Frederico. Em 57 na Itália copiei grafites de banheiros e até de catacumbas, mais por souvenir e curiosidade literária - a chamada "literatura de sentina" - do que por interesse em integrá-los no meu trabalho. Ou talvez existisse tal interesse, mas faltando-me o como passá-los por dentro de mim e vertê-los como coisa minha. Mais de dez anos depois, aqui em Recife, voltei à carga, desta vez saindo da posição de simples espectador e transformando os desenhos riscados nas portas e paredes dos banheiro públicos em xilogravuras, tendo, com algumas delas, concorrido a uma bienal da Bahia. Mas mesmo que me esforçasse por reproduzir tais desenhos o mais fielmente possível, estes eram feitos por mim: às vezes ampliados, outras reduzidos, não eram os mesmos.
Frederico e Aprigio são diretos. Usam a própria calçada como matriz de gravura e tiraram cópia aproveitando-se do cavado do risco no cimento como se fora rasgado na placa de madeira ou gesso.
Impressa à custa de pressão de saco de areia - como me explicaram - as inscrições resultam em gravuras, às vezes caóticas, sempre de grande dramaticidade, não importando mesmo que as palavras fossem escritas em língua desconhecida. Têm antes de tudo, tais gravuras, a força de testemunho arrancado aos escombros de alguma remota civilização (que por acaso é a nossa) e trazem na sua aspereza e contraste negativo - como nas gravuras de Goeldi - a eloquência de gritos. Além do registro sociológico de expressões e símbolos - de resto, universais - a maior importância está justamente na expressividade gráfica, não havendo assim a dúvida a que ainda se referem seus autores de que essas obras sejam ou não realmente de sua autoria. Os anônimos entraram com a distante matéria-prima, tornada próxima pela arte dos autores das gravuras que são Aprigio e Frederico. As mesmas calçadas poderiam em outras mãos transformar-se em outras coisas; virar, por exemplo, róseas citações idílicas, nostálgicos cartões-postais. O que está porém aí estampado é pois uma visão pessoal dos autores das gravuras e não dos autores dos grafites. Poder-se-ia aproximar o trabalho de Frederico e Aprigio dos inúmeros aproveitamentos e apropriações postos em voga pelo art-brut e o ready-made, com o que tem a ver por exemplo os relevos de Krajcberg, e em que às vezes a elaboração, ou participação dos autores se limita a uma determinada maneira de expor a peça ou a simples assinatura.
A prática de tirar cópias de superfícies em geral, folhas, tecidos, cabelos, esteve em moda no Atelier 17 de William Hayter (Paris, 1927). Mas há muito me desinteressei de me preocupar em saber quem tinha feito primeiro isso ou aquilo, certo de que originalidade é uma coisa mais complexa e profunda diante do que essa miúda catalogação perde o sentido. Mas se querem mesmo saber, confesso que, sob o ponto de vista do vanguardismo, do pionerismo do trabalho, não sei de quem o tenha feito assim e nem tão sistematicamente, como será possível avaliar.
José Cláudio
Olinda, 3 de junho de 1981.
Texturologia das Calçadas de Olinda
Leonardo da Vinci, no século XVI, ficou encantado ao descobrir nos muros e paredes de Florença, todo um mundo de impressões e sugestões advindo da textura e das manchas neles existentes. Não sei se era hábito dos florentinos rabiscar desenhos e grafismos nos muros e nas calçadas, mas é possível que sim porque essa prática é inerente ao ser humano desde priscas eras e porque é próprio do homem registrar através de traços e desenhos, em superfícies as mais diversas, seus pensamentos e sentimentos.
Em várias cidades do mundo, com certeza, encontrar-se-ão em seus muros e em suas calçadas esses registros que os irmãos Aprigio e Frederico recolheram das calçadas de Olinda, não sendo, portanto, apanágio desta última a existência de grafismos. No entanto, o mérito desses dois irmãos artistas consiste em que eles documentaram de forma mais completa o microuniverso dos desenhos existentes nas calçadas de Olinda.
Eles poderiam ter ampliado a sua documentação incluindo também o grafismo dos muros, o que criaria o confronto entre os planos horizontais (calçadas) e os planos verticais (muros), suportes nos quais se encontram tais desenhos.
Poderiam também pura e simplesmente fotografar a sua pesquisa, mas tal processo provavelmente não teria a força e a pureza que tem as gravuras monotípicas por eles realizadas, que contém algo do que Jean Dubuffet chamava de art-brut, na sua espontaneidade e simplicidade aparentes.
Esses trabalhos são frutos da observação atenta de dois transeuntes cujos olhos se dispuseram a "varrer" o chão por onde pisaram, detectando nas calçadas de cimento (material este já conhecido dos romanos, diga-se de passagem) uma série de acontecimentos registrados em signos e escrituras feitas por anônimos.
Ao olhar atento desses dois artistas e de outras pessoas que possivelmente perceberam a riqueza sígnica (e, por vezes, simbólica) que se estende horizontalmente aos nossos pés, podemos contrapor uma situação inversa, a do transeunte ausente e alienado dessa realidade. O nosso hábito visual de olharmos mais ao nível de nossa própria cabeça, um pouco acima ou um pouco abaixo às vezes, é talvez uma consequência do nosso comportamento psicológico e sociológico, um condicionamento da rotina e da retina.
É verdade que não podemos exigir que todos andem sempre de olhos voltados para o chão, como tamanduás à cata de formigas, como também seria estranho que centenas ou milhares de pessoas ficassem de olhos voltados para o céu, como no quadro surrealista L'attente, de Richard Oelze.
Mas, o olhar atento daqueles que sabem ver e não simplesmente olhar se dispõe a flagrar qualquer realidade, seja em que nível for. Dessa forma, Aprigio e Frederico, como outros já fizeram, flagraram com acuidade o mundo de referências sígnicas paralelo e situado aos seus pés.
Porém, além de o flagrarem também o registraram, o que, em suma, se transformou no registro de registros. Os registros impressos em cimento nas calçadas de Olinda, principalmente, serviram para que os dois artistas deles se utilizassem como matrizes de seus trabalhos, grafismos e desenhos executados por pessoas desconhecidas, sob os mais diversos humores e intenções.
Quase diria que Frederico e Aprigio funcionaram como verdadeiros arqueólogos do contemporâneo, se tal expressão não fosse tão contraditória apesar de me ser simpática. Seria melhor, talvez, dizer, para não ferir os ouvidos acadêmicos e bem comportados, que eles, os artistas aqui em foco, realizaram um trabalho de historiografia visual de registros recentes.
Podemos detectar nos trabalhos de Aprigio e Frederico algumas referências oportunas: as suas gravuras (no sentido mais amplo) são predominantemente texturais e tem alguma conotação com as obras dos chamados "pintores de matéria", pertencentes à época do informalismo abstrato, tais como Tàpies, Cuixart, Tharrats, Vilacasas, Mier, todos da quarta escola barcelonesa, que se situa entre as décadas de 50 e 60, e mais com a obra do francês Fautrier. Tal conotação não é forçada nem gratuita, pois Aprigio e Frederico são grandes admiradores de Tàpies e da mencionada escola barcelonesa e, possivelmente, de Fautrier.
Por acaso ou aleatoriamente, o material recolhido por eles se ajusta a essa observação, que me parece procedente.
O conjunto de gravuras ou registros tem muito a ver também com as pinturas e incisões gravadas sobre rochas, realizadas pelos homens pré-históricos em diferentes regiões do mundo, inclusive as que se encontram na Paraíba, no Piauí, em Minas Gerais e São Paulo.
Foi realizado uma espécie de mapeamento monotípico das calçadas de Olinda, o que, sem dúvida, além do valor artístico, histórico e documental, nos leva a pensar que também se trata de um trabalho sociológico, já que os desenhos, os textos, os signos, os símbolos e grafismos texturais recolhidos constituem um excelente material de estudo para a semiologia, a psicologia e as ciências sociais.
Um dado curioso é a existência, muitas vezes, da escrita especular, ou invertida, que nos remete a Leonardo da Vinci e Lewis Carrol, ambos cultores desse tipo lúdico de inversão escritural. Por sinal, os próprios Frederico e Aprigio, costumam realizar, vez por outra, este sistema especular de escrita em seus quadros a óleo, criando uma inversão da imagem, como um negativo.
Há também a registrar aqui o aspecto hieroglífico desses trabalhos, quando alguns signos e grafismos se tornam de difícil leitura e interpretação, invertendo e abstratizando o processo de comunicação.
A textura do material (cimento) transportada para o papel, tornando-se gravura, cria um distanciamento interessante em consequência da granulação obtida e do efeito causado pelo contraste do preto-e-branco, parecendo ao espectador, por vezes, estar apreciando grandes superfícies topográficas arenosas vistas do alto.
O microcosmo dos signos implantados nos desenhos das calçadas amplia-se através da fragmentação granular dando a ilusão, às vezes, de constelações estrelares com seu desenho transformado em grandes trajetórias.
Assim, a poética adstrita a um espaço limitado e inferiorizado pelo uso se transmuda em poética de grande transcendência, confirmando que a arte se caracteriza especialmente por seu poder alquímico de transmutação e não pelas falsas e fáceis pirotecnias tão a gosto dos pseudo-artistas.
Por último, vale a pena dizer que nos trabalhos dos talentosos artistas Aprigio e Frederico, realiza-se uma incursão no territótio da natureza artificial, em contraposição à natureza natural, pois que esses trabalhos são baseados em outros trabalhos já realizados pelo próprio homem em seu habitat urbano. Aqui o homo faber se une ao homo ludens e provoca e cria em seu próprio ambiente, artificialmente, ou seja, com os artifícios do seu fazer, uma nova realidade com caraterísticas especificamente suas.
Montez Magno
Olinda, 1 de fevereiro de 1982.
Das Calçadas de Olinda
Em fevereiro de 1978 fomos a São Paulo, onde passamos a morar. Caminhando pelo bairro de Pinheiros, mais exatamente pela rua Teodoro Sampaio, percebemos a ausência de inscrições nas calçadas. A partir de então, por onde quer que andássemos, qualquer rabisco nos chamava a atenção, porém não encontramos nada que nos reportasse aos desenhos que nós próprios executávamos ferindo o cimento fresco com cacos de telha, pedaços de madeira ou qualquer objeto rijo.
Com o objetivo de uma maior aproximação em relação a fonte do trabalho, em julho daquele mesmo ano voltamos a Olinda e fizemos as primeiras experiências com o processo de impressão nas próprias calçadas. Surgiram então as primeiras "monotipias".
Percorremos diversos bairros de Olinda antiga e, além das inscrições em cimento, constatamos uma variedade enorme de figuras talhadas nas cerâmicas que formam os pátios das igrejas, ampliando nosso levantamento. É interessante observar que na cerâmica o processo de execução é lento, contrastando com o das inscrições no cimento fresco, cuja pressa é parte integrante do clima de proibição, de transgressão.
Somente em janeiro de 1981 é que retomamos sistematicamente o trabalho de coleta das "monotipias", consistindo na localização, limpeza da calçada e execução da impressão. Utilizamos tinta látex preta, papel canson e realizamos a pressão através de um saco de areia, cuja maleabilidade acompanhava as irregularidades das superfícies. Algumas inscrições, que antes havíamos transferido para o papel, foram destruídas devido a restaurações das calçadas, promovidas por iniciativa particular e de órgãos públicos.
Ao longo desses anos, mais de uma centena de imagens foi impressa, compondo um grande painel, que se destaca também pela extrema riqueza de sua pluralidade gráfica.
Aprigio e Frederico
Olinda, junho de 1987.
Aprigio e Frederico, profetas das calçadas
Originário do patriarcado rural, levei muito tempo para entender que o Povo pertencente ao Brasil real - e não ao oficial e artificial - não se encontrava somente no Sertão, como eu julgava a princípio; que em qualquer Favela encravada nas Cidades eu poderia reencontrar essa gente do Brasil verdadeiro, tão explorada e oprimida pela do Brasil legal.
Por outro lado, tendo minha formação efetivada no contacto com a intelectualidade urbana, levei muito tempo para descobrir que a pintura rupestre nordestina e as Insculturas riscadas em baixo-relevo da nossa Escultura pré-ibérica eram obras-de-arte tão ousadas, belas e vigorosas quanto as cerâmicas de Picasso ou as gravuras de Chagall e Miró.
Cheguei a essas reflexões por mim mesmo, vencendo, de modo tenaz, penoso e gradativo, certos preconceitos que nos deformam desde a infância sem que tenhamos deles uma clara consciência. De modo geral, e em cada um de nós de modo diferente, existe uma terrivel diferença entre avistar e ver. Todo dia passamos indiferentes diante de pessoas, coisas e acontecimentos importantes, fatos que avistamos mas que somos incapazes de ver e enxergar em seu verdadeiro significado, às vezes profundo e simbólico. Mas quando, por alguma decisão baixada do Alto, a revelação fulgurante ocorre, a sensação experimentada por aquele que foi escolhido para ela é de exaltação, de encontro, de reencontro e deslumbramento.
Acho que foi um desses raios fulminantes e reveladores que apanhou dois jovens Profetas - os irmãos Aprigio e Frederico - diante das formas riscadas em baixo-relevo por pessoas anônimas do Povo no cimento das calçadas e nas lajes de cerâmica dos pátios de Olinda. Foi esta, pelo menos, a sensação que o trabalho deles me causou, obrigando-me a ver aquilo que, antes, eu apenas avistava. E mostrando-me novamente que, para encontrar essas poderosas manifestações da Arte brasileira "primitiva", eu não teria que, forçosamente, me deslocar para o Sertão e sua Arte rupestre, porque, em nossas calçadas, artistas anônimos e vigorosos como os rupestres tinham deixado suas marcas.
Pelo que conheço da feira literária e artística, que infelizmente existe no Recife como nos quatro cantos do mundo, imagino que devem ter sido muitas as pessoas que, sob pretextos diversos, tentaram menosprezar o trabalho dos dois jovens Profetas. Eles devem ter sido acusados de não serem os verdadeiros autores das Gravuras, como se isso tivesse importância num caso como o presente e como se os dois não tivessem revelado, desde o início, o processo pelo qual tinham chegado àquele maravilhoso resultado.
Devem ter aparecido também no seu caminho aqueles que, roendo-se de inveja por não terem sido os eleitos para revelação, destinada aos dois por algum desígnio secreto da Providência e de seus emissários, arvoraram-se imediatamente em defensores do Povo, Povo a quem os Profetas tanto amam e a cujo serviço sempre se colocam, mesmo quando invectivam ou anunciam apocalipses e calamidades. Esses estéreis que, pelo próprio fato de serem estéreis, invejam todos aqueles que têm força criadora, eu os conheço muito bem. Por isso, sei que, no mínimo, devem ter murmurado que o trabalho genial e revelador que Aprigio e Frederico levaram a cabo resultou de uma apropriação indébita. Que os verdadeiros autores, as pessoas anônimas que fizeram as inscrições, foram desrespeitados. E que as inscrições deveriam ter sido deixadas em seu verdadeiro lugar, as calçadas, porque retirá-las do local de origem é uma deturpação, uma violação de sua "pureza", de sua "verdadeira identidade".
Mas esse vozerio dos invejosos e despeitados não deve ter atingido os dois jovens Profetas. Eles sabem, por dentro, que tiveram uma revelação, e que essa revelação, como aconteceu com a brasa que queimou a boca profética de Isaias, os obrigava a comunicar aos outros o extraordinário fato que lhes fora revelado. Sabem que a obra que a partir daí empreenderam é um trabalho de amor ao Povo e mostra, pela primeira vez, de que dignidade, grandeza e força criadora esse Povo é capaz e que traduziria em obras a cada instante se lhe fossem dadas condições de trabalhar no campo da Gravura e das outras artes. E devem saber também, os dois, que muito mais importante do que as murmurações dos mesquinhos e invejosos, é o fato de que qualquer pessoa dotada de alguma grandeza e alguma generosidade saberá reconhecer a dívida que todos nós que amamos a Cultura brasileira temos dagora por diante em relação a Aprigio e Frederico.
Sim, porque além do agudo olhar e da visão profética que revelaram ter, experimentaram eles o outro estalo-de-gênio que, se não existisse, teria deixado o primeiro incompleto. Tiveram a idéia - tão simples e, por isso mesmo, tão rara e difícil - de transformar os próprios riscos e trechos de calçadas em matrizes de Gravuras, obtendo um resultado que é tanto mais importante na medida em que soma ao trabalho normal de criação dos dois aquele através do qual o Povo expressa, da maneira que lhe é possível, seu impressionante poder criador. Nietzsche afirmava que alguns dos melhores e mais honrosos qualificativos que nos são apostos são aqueles a nós atribuídos como insultos por nossos inimigos e adversários, isto é, aqueles que sentem por nós uma aversão cuja origem provavelmente não é muito clara para eles. Assim, quando os estéreis e mesquinhos que votam má-vontade aos nossos Profetas afirmam que o trabalho deles de fato pertencem ao Povo estão fazendo aos dois o maior dos elogios.
Quanto a nós, gostamos deles e os admiramos exatamente pelo serviço extraordinário que prestaram ao País e ao Povo. Sabemos que, de fato, dagora por diante, numa união indissolúvel, essas Gravuras - que, a partir da primeira, podem agora ser multiplicadas ao infinito, sempre diferentes e sempre as mesmas - essas Gravuras pertencerão para sempre aos dois Profetas que as revelaram e ao Povo. De modo que eles podem se quedar tranquilos porque, mesmo que não fizessem mais nada, já fizeram mais do que lhes era exigido na tarefa coletiva de transformar nosso grande País numa verdadeira Nação, coisa que ele não é ainda. Nessa tarefa, como me dizia certa vez o grande Francisco Brennand, cada um de nós não precisa e não deve fazer mais nada além do seu grave, severo, modesto e cotidiano dever. Aprigio e Frederico estão cumprindo o seu.
Um dia, na Universidade Federal de Pernambuco, ouvi uma aula preferida sobre a Pré-História Brasileira por Niede Guidon, essa mulher extraordinária que, no seu canto e no seu domínio, também está cumprindo seu dever em relação a seu país e seu Povo, indiferente às críticas mesquinhas e ao vozerio dos estéreis. Nessa aula, Niede Guidon aludiu de passagem a uma gruta existente no Piauí, gruta que, por dentro, tem suas paredes recobertas de pinturas rupestres. Ao que me recordo, oscila entre 8.000 e 12.000 anos a idade dessas obras pintadas por nossos remotos antepassados, que parecem ter sido os Cariris. Na entrada da caverna existe um grande Sol, pintado em vermelho, e a ele se seguem, como cortejo, Vulvas inumeráveis. E é só. As pessoas chamam-na comumente de Gruta do Sol, e Niede Guidon, bem-humorada, propunha para ela, em vista da desproporção, o nome de Gruta do Gineceu.
Pois bem: ao ter pela primeira vez diante dos meus olhos, o trabalho de Aprigio e Frederico fui assaltado por uma sensação vertiginosa que parecia me fazer sobrepairar o Tempo e suas arbitrárias divisões entre passado, presente e futuro. Eu escrevera, um dia, que nossas ligações com a Pintura rupestre, longe de se originarem de um mórbido culto às cinzas do passado, identificam, em nosso sangue, as raízes mais remotas da nossa Arte com uma verdadeira Vanguarda brasileira que, exatamente por isso é que aponta para o futuro, ao contrário das falsas vanguardas que envelhecem velozmente a cada novidade que se importa de fora. Foi esta convicção que o genial achado de Aprigio e Frederico veio reforçar em mim, com as vulvas pintadas nas pedras do Sertão nordestino reencontrando as das calçadas de Olinda. As quais, por entre Cristos, rosas, falos, formas abstratas e inscrições de amor ou de protesto contra a fome e a opressão, reeencontram o espírito e as formas que iluminaram aqueles nossos remotos antepassados, eles também integrantes da mais ousada e criativa Vanguarda brasileira.
Miró dizia que, depois da Arte das cavernas, tudo é decadência. Não vou tão longe, porque, inclusive, artes como a do próprio Miró mostram que aquela força e aquela garra dos rupestres não se extinguiram. E, no campo da Arte brasileira e nordestina, trabalhos como o de Aprigio e Frederico revelam que a mesma chama continua acesa. Não para repetir Miró ou quem quer que seja, mas para fazer em relação a nosso País e a nosso Povo aquilo que Miró e outros fizeram em relação aos seus.
Ariano Suassuna
Recife, 29 de abril de 1989.