Bronzes das calçadas de Olinda
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
1996
As velocidades da experiência
A experiência artística, enquanto tentativa de obtenção de novos caminhos e soluções para os problemas da arte, constitui-se, para o artista jovem, a aventura inevitável na qual o seu gênio outorga o impulso para o avanço do conhecimento. Na maturidade, com algumas direções definidas e áreas demarcadas pelo critério das realizações e de seus resultados, convém ao criador de arte uma atenção redobrada contra o que pode se constituir uma acomodação temporária, que pode durar o resto da vida, a partir de uma fórmula que funcione, colocando sua obra no perigoso ambiente do déjá-vu ou na cômoda automaticidade da inércia. Em casos raríssimos, essas fórmulas recriam um estilo, e toda a arte, como um cortejo que encerra um descanso, avança alguns passos.
Ocorre que, para o artista maduro, as soluções em seu alto universo, estão ligadas às áreas do inconsciente em que a velocidade da intuição ou o espaço percorrido pela experiência reagem para a contenção da impaciência, para o desenvolvimento da observação com que o tempo permite tudo alcançar e processar. Seria uma tentativa de imitar a natureza não em sua forma exterior, em sua aparência, mas no lento e silencioso processo no qual a luz batiza uma mesma folha com seus inúmeros verdes.
Um dos melhores exemplos de uma atividade artística voltada para a observação e experimentação, de forma lúcida e protegida pelo lento manto da sombra do tempo, é a obra de pintura e gravação desenvolvida pelos artistas pernambucanos Aprigio e Frederico. Convém lembrar; neste universo particular que aqui se apresenta em inscrições sobre placas de bronze, que tais desenhos e grafismos não pertencem à invenção dos artistas, mas à percepção de uma invenção anônima que se apresenta diante de todos os olhos no passeio das calçadas de Olinda. Isto nos lembra a origem desta obra quando, em 1978, caminhando por uma calçada, em São Paulo, os dois irmãos perceberam a ausência dessas inscrições sobre o caminho que pisavam. A partir de então, juntos têm realizado, nos últimos dezessete anos, estudos de localização e registros dessas inscrições, que dormem no cimento das calçadas e nas lajotas cerâmicas dos pátios das igrejas de Olinda, com o único e determinado fim de perpetuá-las. Até os primeiros anos da década de 90, estes registros eram feitos com a utilização de tinta látex preta e papel canson e, posteriormente, usando a pressão de sacos de areia para melhor acompanhar as irregularidades do chão. Mas que material se prestaria, em tão ousada empresa contra o tempo, como espada ou escudo em que se gravariam essas marcas para sempre? Uma liga metálica que tivesse a tradição das mais antigas formas de transcrição de relevos escultóricos: o bronze.
O bronze é uma ligação do cobre e do estanho, e tem sido utilizado como matéria-prima para esculturas desde o momento em que foi criado pelo Homem. Muitas técnicas já foram usadas ao longo do tempo para a realização de esculturas em bronze, e como a sua obtenção está diretamente ligada a um processo de fundição, podem ser aplicados moldes de areia, cera ou cerâmica, em diferentes processos. Aprigio e Frederico realizam seus moldes em gesso, e a partir das matrizes conseguidas nos locais das inscrições, são obtidas as placas com a fundição de bronze. As variações de coloração conseguidas em cada peça devem-se à utilização da pátina aplicada sobre elas (ou seja oxidando suas superfícies com a ajuda de ácidos), mas que, de forma natural, surgiria com a passagem dos séculos, que é dizer; no lento percurso do tempo. Por isso a arte, enquanto objeto de expressão e representação exclusivo do ser humano) é o seu único meio, ao mesmo tempo incontrolável e ilusório de, transferindo para materiais duráveis formas e símbolos do universo apreendido por seu olho sensível, tentar lutar contra a morte. Isto Ihe possibilita, inconscientemente, marcar os espaços que o tempo percorre tornando-a o mais fiel registro de idéias, religiões e costumes que acompanham o Homem desde a sua pré-história. Neste sentido, o Homem passa a existir (enquanto ser vivo diferenciado dos demais) no momento em que sua fantasia se transforma em necessidade vital.
Nestas inscrições aprisionadas no bronze por Aprigio e Frederico, a fantasia anônima, gravada na velocidade do cimento fresco ou no lento esculpir de uma centenária pedra cerâmica, revela ao observador atento uma ilimitada variação de formas, obtidas a partir de temas comuns e recorrentes. São esboços de rostos, bonecos, cristos estilizados, elementos simbólicos que parecem ícones secretos (ou a imagem de algum antigo tótem), e, principalmente, os signos do sexo.
Como em sua maioria tais grafismos são exercícios de meninos e adolescentes masculinos, grande parte desses sexos são representações do púbis feminino: triângulos circundados por traços simétricos que tendam expor ao conhecimento público a noção de que aquele segredo já é conhecido por alguérn. É como se a exposição daquele grafismo insinuasse uma certa intimidade revelada, assim como a busca instintiva e cada vez maior de uma proximidade com o ambiente em que se dá a reprodução, o que, por sua vez, reside no próprio gesto de repetir este grafismo à exaustão.
Isto tudo, enfim, parece querer mostrar à multidão sem olhos que ainda não encontra valor ou justificativa numa obra de arte, que um quadro ou uma escultura expostos ante a superfície de uma parede, não são um quadro ou uma escultura surgidos do nada, criados por cores e materiais que se agregam ao acaso, mas são objetos nascidos da experiência e da sensibilidade de seres semelhantes a todos que os observam, e que por uma direção diferente dada aos seus sentidos puderam, como qualquer outro tocado pela chama da arte, aprisionar uma imagem ou uma idéia que por um instante lhes pareceu querer se dar à vida. Aquele quadro ou escultura são o testemunho humano, e assim deveriam ser vistos por todos, da capacidade única que nos foi dada de registrar fatos e emoções de forma distinta de todos os outros seres, e que no artista apenas se revela como metáfora do que somos capazes de fazer.
Nesta exposição, estas placas de bronze, frutos da percepção e da apreensão de registros gráficos feitos nas calçadas de Olinda, fazem de Aprigio e Frederico mais que dois de nossos melhores criadores da arte, mas artistas dotados de uma sensibilidade e de uma humanidade que lhes permitem, agora, entrar em cena apenas para trazer pela mão artistas que não se revelaram, mas que poderia ser cada um de nós.
Weydson Barros Leal
Recife, janeiro 1996.