"Assucar"
Aprigio Fonseca e Frederico Fonseca
2003
"Assucar"
Desde meados da década de 1970, tenho relações cordialíssimas com Pernambuco e sua arte.
Reencontrei e acompanhei os trabalhos de Aprigio e Frederico em São Paulo nos anos 1980, em especial da série "Das calçadas de Olinda", iniciada pouco antes. Como se sabe, consistiu numa apropriação dos infinitos signos incisos nos passeios da velha cidade, signos ora figurativos, ora abstratos, arte espontânea e anônima, que os dois irmãos utilizaram em obras bi e tridimensionais. As impressões e moldagens se faziam diretamente no local, com o piso funcionando como as matrizes de uma gravura sobre o papel, ou como a fôrma em negativo, de um relevo. Nos anos subsequentes, outras séries de obras desdobraram as possibilidades aí inventadas, tudo, porém, dentro do mesmo projeto de retomada e resgate.
Entendo hoje bem melhor o trabalho dos dois artistas, do que no começo da amizade com Pernambuco. Primeiro, através de um mergulho na obra de Brennand - que, descobri, sempre foi vista equivocadamente -, creio possuir hoje um insight preciso sobre a produção pernambucana e suas especificidades. Caracterizam-na, em última instância, a consciência social e o engajamento. Por isso, em nenhum outro estado brasileiro a arte figurativa tem sido tão resistente, e tão quase-absoluta. Mesmo que não exista uma "escola pernambucana de pintura" - como se questiona o sempre arguto José Cláudio -, há seguramente em Pernambuco um "genius loci" insistentemente figurativo e humanista.
Manifesta-se ele tanto na sempre densa e muitas vezes sombria pintura de João Câmara quanto na hierática e algo misteriosa gravura de Gilvan Samico, passando ainda pela obra fluente e coloquial de José Cláudio (que pinta exatamente como fala e escreve) e pela trágica escultura brennandiana, cujas raízes se fincam no "lado noturno" da Grécia clássica.
Percebo que a produção de Aprigio e Frederico caminha pelo mesmo trilho. Pertencentes à geração de onde saíram os principais (e poucos) artistas pernambucanos abstratos, não chegam a ele através da figura, da representação mimética, do "assunto" (termo que Volpi usava com singular desdém, opondo-o a "pintura", os valores formais de uma obra), e sim do resgate metafórico da terra. Suas obras retornam sempre a ela, metamorfoseando-a através de signos não icônicos aos quais não faltam, entretanto, alusões à realidade exterior. Particularmente significativa dessa simbiose é a fase atual, que os artistas denominaram "Assucar" (assim mesmo, com ss, como no velho livro de Gilberto Freyre). As obras nascem de um pensamento decididamente abstrato, não da "necessidade" de se parecer com alguma coisa, mas, deliberadamente, acabam parecendo. A partir da constatação da semelhança de alguns materiais artísticos com os subprodutos da cana - o pó de mármore com o açúcar, vernizes escuros com melado e melaço -, o que a rigor é apenas um cubo sobre uma superfície circular acaba se tornando, também, a essencialização de um pedaço de rapadura num prato, por exemplo.
Isso não é regionalismo, sequer cor local; vem a ser exatamente aquela transubstanciação de que falava Tolstói, ao afirmar que para se ser universal é necessário começar-se falando de nossa própria aldeia. A consciência social e o engajamento podem assumir vertentes mais light, mas não menos verdadeiras nem menos amorosas. Noto que em Pernambuco e em Minas sobrevive hoje, na arte brasileira, essa transposição para um nível rigorosamente elaborado - nada mais elaborado e castigado que uma gravura de Samico, que absolutamente nada tem de popular ou singelo! - de semantemas e ícones hauridos numa cultura de base, a qual é mais rude e densa em Pernambuco, e mais artimanhosa e lírica em Minas. Nesta, basta ver os milagres que produz o pequeno duende e grande artista chamado Marcos Benjamim.
Parabéns a Aprigio e Frederico por pertencerem a essa família. Podem ter certeza de que para a inteireza da arte pernambucana - que admiro pela convicção e solidez - seus trabalhos, seu tipo de "approach", suas transposições e resgates são necessários. Ela, a arte pernambucana, estaria incompleta sem eles.
Olívio Tavares de Araújo
São Paulo, 2003.